Ela representa os delegados de polícia de SP, mas sofre com machismo

Camila Brandalise | De Universa | Reprodução

Convidada certa vez para participar de um evento sobre segurança pública, a delegada Raquel Kobashi Gallinati, 43 anos, primeira mulher a presidir o Sindpesp (Sindicato dos Delegados da Polícia Civil de São Paulo) em 31 anos, ouviu seu nome ser chamado por uma das autoridades com um complemento: “Venha embelezar a mesa”.

Com o microfone na mão, disse: “Muito obrigada, me sinto lisonjeada, mas o fator que me faz compor essa mesa é representar todos os delegados de polícia do estado de São Paulo”.

Em outro momento, em uma reunião com 20 pessoas, sendo ela a única mulher, Raquel ouviu de um colega delegado, após dar uma opinião sobre determinado assunto: “Ela é louca, descontrolada”. “Falei: ‘Fulaninho, mais respeito ao falar comigo, vai tomar um remedinho porque você está completamente desequilibrado”, relembra.

Na sala de reuniões do sindicato, onde recebeu a reportagem de Universa para esta entrevista, Raquel bateu três vezes na mesa com a lateral da mão ao falar sobre uma pergunta que a persegue desde que assumiu a função de representante dos delegados paulistas, em 2016. “Por que as pessoas depreciam o que eu faço se eu trabalho dez [primeira batida] vezes [segunda batida] mais [terceira batida] do que um homem medíocre?”

Por homem medíocre entende-se o “homem médio”, explica Raquel, não no sentido pejorativo, mas no que se refere ao sujeito sem nenhuma qualificação de destaque. “Eles são presidentes, CEOs de grandes empresas ou diretores de departamentos institucionais, públicos e privados, e não são questionados o tempo todo sobre sua competência. Eu, ao contrário, estou sempre sendo sabatinada.”

Mais mulheres na segurança pública

Raquel diz que cogitou desistir do cargo um ano após assumir a presidência. “Pensei: não quero ficar aqui. Mas agora vou dar crédito aos próprios homens: foram eles que me apoiaram quando reclamei e disseram que não iam admitir preconceito contra mim”, relembra.

Também por causa das situações que já passou, decidiu criar, em novembro de 2019, o movimento Mulheres na Segurança Pública ao lado de outras três delegadas do estado. Uma das ideias é dar suporte a profissionais femininas do meio que estejam passando por situações similares e incentivá-las a perseguir posições de liderança.

Além disso, quer estimular jovens estudantes a entrarem para a polícia e ocuparem cargos altos. Como consequência, a ideia é que haja mais mulheres no atendimento de vítimas de violência de gênero, para que elas se sintam incentivadas a denunciar.

“Meu filho vai saber que mulher pode prender bandido com metralhadora empunhada”

A delegada é bastante enfática ao dizer que mais leis ou prisões não são suficientes para acabar com a violência doméstica. “É um pensamento ingênuo. O problema é muito mais complexo.”

É preciso, antes de tudo, que cada um reconheça e admita o próprio machismo. Depois, políticas públicas para educar a população a mudar de comportamento em relação ao tratamento dado às mulheres. Acredita, na verdade, que isso tenha que começar em casa.

“Pais e mães precisam ensinar aos filhos que mulheres podem ter o mesmo papel que os homens. Eu, se tiver um filho, e se Deus quiser terei, ele vai saber que mulher não tem que ficar em casa cozinhando, que ela pode estar prendendo bandido com uma submetralhadora empunhada”, afirma. Raquel é uma das poucas mulheres do estado a ter habilitação para manusear submetralhadoras, fuzis e carabinas.

Raquel e o noivo, com que se casa em abril de 2020: "Meu filho vai saber que mulher pode prender bandido e empunhar submetralhadora" - Divulgação
Raquel e o noivo, com que se casa em abril de 2020: “Meu filho vai saber que mulher pode prender bandido e empunhar submetralhadora”Imagem: Divulgação

O plano de ter um filho será colocado em prática ainda em 2020. Em abril, ela se casa com um investigador de polícia com quem começou a namorar em março de 2019. “Estava pensando mais seriamente em uma produção independente, mas coincidiu de o Marcel [o noivo] aparecer”, diz. E sorri

“Vítima de violência doméstica é como dependente química”

Nos quatro anos em que foi delegada, de 2012 a 2016, diz ter presenciado diversas situações de violência contra a mulher que a chocaram. Mas ressalta uma cena que se repetiu e que explica o ciclo em que as vítimas estão inseridas.

“A mulher estava com a cara deformada de tanto apanhar, o agressor era preso em flagrante e depois ela pagava a fiança para soltá-lo. Aconteceu algumas vezes e chegou uma hora que eu não arbitrava mais fiança”, diz.

“Eu costumo associar essa mulher a uma dependente química. É aquela dependência que ela sabe que faz mal, mas a abstinência a deixa desesperada”, explica Raquel.

A delegada diz que, antes de julgar, é preciso entender que a vítima está envolta em uma situação que, inclusive, lhe tirou a autoestima e a força para superar. “É um crime que se perpetua por quê? Porque quando a mulher fala que não aguenta mais, ‘você me trai, me ofende’, ele diz: ‘Não farei mais isso’. A esperança na relação se renova, e ela fica cada vez mais codependente.”