Editorial: A dor da gente não sai no jornal

Nesta semana confirmamos um ano do início do isolamento social. Em 365 dias, 300 mil brasileiros perderam a guerra contra a Covid-19. E nesta quinta-feira (25/3), essa doença me derrubou em lágrimas novamente.
Quem nos acompanha sabe nosso empenho diário em levar informações relevantes que possam sempre contribuir para que as pessoas entendam a gravidade da situação e para que o Poder Público se mobilize para aumentar auxílios e suportes de saúde. Essa foi uma cruzada muito pessoal minha, da qual me orgulho demais: conseguimos o cartão merenda, roupas apropriadas aos coveiros, revezamento de equipes de servidores, testagem em massa para os profissionais da Saúde e aumento dos testes na população em geral. O aumento no número de leitos também foi uma luta séria que compramos que tem se mostrado importante nessas últimas semanas.
Mas hoje, minha perda é pessoal. É uma dor triste e muda que gostaria de extravasar aqui para que fique de alerta. Porque essas 300 mil mortes não são apenas números. São pessoas. E nessa quinta, quem perdeu a batalha foi o “seu” Donisete Silva. Um querido engenheiro mauaense, rotariano, morador do Guapituba, pai de duas “meninas” lindas e marido da dona Cleo. Donisete tinha 59 anos e passou a ultima semana entubado, em um hospital da Santa Helena, em Santo André. Ele era o pai zeloso da minha amiga Cynthia Tavares, uma das melhores jornalistas que conheci. “Seu” Donisete era um paizão. Em 2011, ano anterior ao do meu casamento, bati meu carro e, sem dinheiro pro conserto, fiquei dependendo de condução. Na época, ele não hesitou em desviar o caminho do Guapituba ao Alto da Boa Vista para me deixar em casa todas as noites, por mais de três meses. Ele era assim. Esse pequeno gesto marcou para sempre. E mesmo dez anos depois, eu ainda sou grata demais por ele ter entendido o quanto isso era importante para mim. Hoje eu chorei demais por ele, mas também por toda sua família que passa por essa dor atroz sem conseguir receber o apoio e o abraço amigo, que nesse momento não consegue mensurar como o “seu” Donisete vai seguir vivo na memória das pessoas por essas pequenas alegrias que ele provocou. A dor da gente não sai no jornal, mas hoje eu resolvi que sairia para que vocês possam entender a importância de respeitar essa fase de isolamento.
Nestes últimos 15 dias assisti, com um misto de incredulidade e desespero, os números crescentes de internações por Covid-19 pressionarem a Saúde pública e privada do ABC. Se você não tem um amigo, familiar ou conhecido nessa situação, sinta-se privilegiado.
E recomendo de novo: fique em casa, use máscara e tenha sempre álcool em gel à mão. De resto, aperte os cintos porque teremos mais turbulências à frente.