Tutto andrà bene!

A quarentena italiana e o relato de dois brasileiros

Os jornalistas brasileiros Paula Ferreira, 38, e Walter Fernandes, 36, trocaram Santo André pela Itália no fim do ano passado e foram pegos de surpresa pela epidemia do Coronavírus. Moradores da região da Lombardia, a mais afetada pelo surto no país, eles fizeram um relato ao JNC sobre a situação e o clima que vivem hoje. Confira:

Vemos a vida passar pela janela. Já não ouvimos mais o som dos carros nas ruas, não avistamos os velhinhos reunidos na praça antes do almoço, gente indo ao trabalho de bicicleta, nem o alvoroço do vai e vem das crianças. Apenas o sino da igreja insiste em interromper o silêncio do dia. Permanecemos em casa, certos de que tudo ficará bem, de um jeito ou de outro.

Moramos no centro de Desio, uma cidade de pouco mais de 40 mil habitantes, na região da Lombardia, a mais afetada pelo coronavírus na Itália. O número de contágios e mortes muda numa velocidade cruel.

Estar em quarentena é um exercício de paciência e, acima de tudo, respeito e amor ao próximo. Empatia palpável, como no bilhete amarelo que deixaram em nosso portão com a frase “Tutto andrà bene [Vai ficar tudo bem]”, um coração e uma flor feitos à mão. Provavelmente, as mãos de uma criança que observa o cenário atípico com a típica e necessária esperança infantil.

Italianos e estrangeiros estão em casa, mas suas vozes ecoam pelas ruas. As sacadas cantam, embalam jovens e idosos. Do hino nacional à tradicional canção Volare, eles se esquecem um pouco da pandemia. Lembram que todos fazem parte do mesmo lar, que não pode haver diferença entre anfitriões e hóspedes.

Nos hospitais, enfermeiros e médicos reúnem esforços. Dobram a jornada, se desdobram, trabalham à exaustão. Heróis com roupas alvas e organismos expostos ao mal que combatem. O povo reconhece o esforço, o governo, a falta de estrutura e profissionais suficientes para a crescente demanda.

As medidas tomadas até aqui são drásticas, mas necessárias. Decisões tardias, avaliam muitos. A Itália decidiu unir-se e amar-se – como conclama Il Canto degli italiani – para enfrentar o inverno que passará. As flores coloridas dos vasinhos que enfeitam a nossa sacada já anunciam a chegada da primavera.