Pacientes reclamam que Hospital de campanha de Mauá não faz testes; com isso, número de casos na cidade pode ser muito maior

Orientação seria para testagem apenas em casos graves; medicação também não é entregue no local

Paula Cabrera

Com uma semana de funcionamento, o hospital de campanha de Mauá tem sido motivo constante de reclamações nas mídias sociais da Prefeitura de Mauá e do prefeito Atila Jacomussi (PSB). Segundo relatos de usuários do serviço, apesar de funcionar de portas abertas, o local não estaria realizando testagem rápida em todos os casos. Médicos ouvidos pelo JNC afirmam que situação pode ocasionar subnotificação de casos. A Prefeitura nega problemas e diz que o local é referência no atendimento.

O JNC teve acesso a pelo menos dez reclamações que demonstram um padrão de informações dos funcionários do local: apenas casos graves são testados. Pacientes com sintomas “leves” seriam encaminhados para casa, com receita de tamiflu e azitromicina, sem receber, sequer auscultamento em consulta. Não seriam feitos exames do pulmão também.

Uma das denunciantes diz que procurou uma UPA, em Santo André, já que não teria recebido atendimento apropriado no hospital de Mauá. Ela afirma ainda que diferente do informado pelo prefeito em sua mídias sociais, a medicação não é entregue aos pacientes e deve ser comprada. “Fui recebida na triagem por duas pessoas que fazem uma série de perguntas para preencher um formulário. Marquei 16 pontos e recebi uma pulseira amarela (como se fosse um caso intermediário). O médico me atendeu e não auscultou o coração. Passou azitromicina e tamiflu. Perguntei porque e ele explicou que é um antiviral. Disse ainda que havia feito exame para H1N1 e tinha dado negativo. Ele mandou tomar mesmo assim. Questionei se não fariam o teste e ele disse que a orientação é que seja feito apenas em casos graves e de internação. No outro hospital fizeram o teste e deu positivo. Estou em isolamento domiciliar”, diz T. P, que pediu para ter o nome preservado.

K.O também recebeu atendimento na última semana e disse ter ficado insatisfeita. “Não me examinaram, não me testaram, me mandaram para casa e sem medicação. O prefeito diz que dão remédio lá, mas é mentira. Só quem fica internado recebe a medicação. Me mandaram pegar no posto de Saúde. Lá, não tinha tamiflu porque disseram que enviaram para ser entregue e usado no Hospital (de campanha e no Nardini)”, reclama ela, que mora no Parque Vicente.

Diz ainda que a informação sobre a falta de teste é repetida por todos os profissionais. “Na triagem, o único grupo de risco é de hipertenso ou diabéticos. Tenho bronquite asmática e não escutaram nem meu peito. Disseram que possuíam apenas 300 testes no local.”

K.O diz que outras quatro pessoas atendidas antes dela também saíram sem exame e com os mesmos medicamentos.
Há ainda reclamações nas redes sociais de atendimento por profissionais que não são especializados em infectologia, como anunciou o prefeito, mas médicos generalista, um em específico, com formação em ortopedia. Já outros dizem que receberam diagnósticos de sinusite, sem qualquer testagem.

Por fim, há reclamações sobre o fato de casos mais graves serem encaminhados para o Hospital Nardini para a internação. Nas mídias sociais, questionam a situação, que demandaria o uso de ambulâncias para locomoção, mesmo o espaço sendo equipado, em tese, para receber internações ligadas ao coronavírus.

Médico ouvido pelo JNC afirma que situação pode estimular a subnotificação

Médico ouvido pelo JNC afirma que a falta de testagem pode ocasionar a subnotificação de casos da doença em Mauá. “É impossível conseguir saber o índice correto de casos se a orientação é testar apenas os casos mais graves”, diz o generalista Rubens Augusto. O médico completa que a situação pode explicar o alto índice de letalidade da doença em Mauá. “Se há 16% de mortes em relação ao número de casos, pode-se esperar o dobro de casos do atual computado. Isso colocaria Mauá na média de 8% de mortes. Mas, como disse, é impossível poder confirmar com base nos números oficiais”, diz ele.
Sobre o uso de tamiflu ele diz que o tratamento com o antiviral só consta no protocolo de atendimento à gestantes e puérperas e não há informações sobre sua efetividade no uso contra o covid-19.

Confira a íntegra da resposta da Prefeitura de Mauá

Existem mais de 5 mil testes na rede, e a Prefeitura já adquiriu mais. Estamos priorizando profissionais da saúde, grupos de risco e pessoas sintomáticas de coronavírus. Não há testagem em massa em curso no país ainda.
A rede pública de saúde está com a sua capacidade em 70%, ainda comportando pacientes. Além da parceria público-privada, com o Hospital Vital, com mais 29 leitos, e em negociação com a Santa Casa. O objetivo é seguir o fluxo que engloba, além do Hospital de Campanha, toda a rede, para que, somente no caso de ultrapassarmos a capacidade, o Hospital de Campanha seja usado. Como reiteramos, nosso modelo de fluxo foi extremamente pensado, utilizando toda a rede, um total de 299 leitos, até o momento, sendo UTI, Semi intensivo e retaguarda. 
O Hospital de Campanha de Santo André é referenciado (Porta fechada), só recebe pacientes oriundos de outros serviços, já o de Mauá, é de porta aberta, demanda geral, das 7h às 19h, e referenciado das 19h as 7h, são dois modelos completamente distintos de serviços, conforme mencionamos. 

Publicação na Página da Prefeitura de Mauá alertando para a informação de aberto ao público. | Reprodução