Metade das mães que amamentam se permite pequenas doses de álcool

Paula Cabrera

Amamentar e beber é sempre uma discussão que rende controvérsias. Apesar de muita gente torcer o nariz para as mães que optam por oferecer o seio logo após bebericar algo alcoólico, médicos e nutricionistas costumam absolver a decisão, desde que evitados excessos.
Há diversos estudos sobre o tema em diferentes países e mesmo eles apontam discrepância de resultados. A International Institute of Human Lactation, do Estados Unidos, afirma que um número significativo de mulheres entre 14 e 39 anos, mães em potencial, fazem uso regular de pelo menos um drink por semana em muitos países, sendo que um drink-padrão corresponde à quantidade aproximada de 14 g (17,7 ml) de álcool.
Pesquisas recentes publicadas nos Estados Unidos apontam que o álcool interfere nos hormônios prolactina e ocitocina, responsáveis pela produção e ejeção do leite. No Brasil, foi realizado um estudo na Cidade de São Paulo com 504 mulheres e, destas, 45 (8,9%) estavam amamentando e ingerindo bebidas alcoólicas. Já pesquisa com 246 mães em Itaúna, Minas Gerais, encontrou uso de álcool por 44 (17,9%) mulheres durante a amamentação.
“Se a ingestão do álcool for apenas uma dose, a mulher pode amamentar após duas horas. No caso de uma dose mais forte de álcool, a recomendação é pular a amamentação” alerta o pediatra Sidney Porto, um dos mais procurados do ABC.
A pediatra Rossiclei Pinheiro, do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, afirma que existem diversos estudos que analisam o consumo alcoólico de mulheres que estão amamentando e que nenhum indica que o bebê também vá ingerir o álcool ou que terá cólica por sua causa. 
Com experiência pessoal no assunto, posso dizer que medo de beber e amamentar é imenso, mas trabalhei a decisão de consumir uma baixa dosagem ancorada em diferentes opiniões de especialistas, que alertaram que as mães que aprendem a dosar a situação costumam ter uma amamentação mais prolongada. Minha filha hoje está com um ano e meio, mas estava com oito meses quando viajamos para fazer um roteiro de vinhos em Bento Gonçalves. Evitei beber nos cinco dias de passeio, mas no único jantar harmonizado que me permiti curtir as opções de bebidas, levei leite materno para oferecer nas duas horas que a nutricionista recomendou evitar oferecer o seio. Ela rejeitou. Depois de três taças de vinho, ficou a culpa por deixá-la mamar para se acalmar. “Nestes casos, é sempre bom dosar a quantidade de água. Recomendo sempre um copo para cada taça”, explica a nutricionista materno infantil Renata Alves. Que recomenda, no entanto, evitar a amamentação por duas horas.
Segundo ela, pesa ainda para o organismo materno a falta de costume em metabolizar o álcool, após evitá-lo na gestação. “Recomendo máxima dose, que é de uma taça pequena por dia. Claro que não é indicado todos os dias. Depois de duas a três horas, já pode amamentar. Se você amamentar antes de tomar álcool e esperar 2h30 para voltar a amamentar, não interfere”, explica.
Essa dica, aliás, é uma das mais seguidas em todos os estudos mundiais. Na Austrália, 47% das mães oferece o seio e depois toma pequenas doses, esperando que o bebê não volte a pedir antes do tempo necessário para o álcool deixar o organismo. na Itália os números são de quase 40%.
A professora de Pilates, Carol Molina, 32 anos, diz que sempre foi apaixonada por vinhos e conseguiu a liberação de seu ginecologista para tomar uma taça de lambrusco eventualmente na gestação. Quando seu filho completou seis meses e passou a espassar as mamadas, se permitiu voltar a ingerir pequenas doses de vinho.
“Pensei bastante também nas culturas em que o vinho faz parte de todas as refeições, como no Chile, Itália, Portugal”, diz.

“Hoje eu consumo vinho pelo menos uma vez na semana, a noite, quando sei que meu filho dorme mais horas seguidas, e não vai mamar logo. Intercalo sempre com água e como algo junto. Também observo o teor alcoólico para garantir que eu não fique meio tonta, ou durma pesado. Afinal, tem um serzinho que vai com certeza me chamar na madrugada”, diz ela, que prepara um roteiro de vinhos para as próximas férias e segue firme na amamentação.
Já a advogada Joice Cristina Diogo Peres, 36 anos, preferiu eliminar o álcool da sua dieta e tem se empenhado em encontrar alternativas saudáveis para suprir os drinks em eventos sociais. “A amamentação sempre fez parte do sonho de ser mãe, então desde antes da gestação eu já estava preparada para uma longa temporada sem álcool e passei a me divertir criando drinks coloridos, com muitas frutas, hortelã, mel e água com gás. Deu certo, e nesses 2 anos, não sinto falta de outras bebidas, penso seriamente em não consumir mais nada alcoólico”, conta ela, que já encontrou, inclusive, um espumante sem álcool da Aurora para o réveillon. ” Gosto muito também da cerveja sem álcool da Estrella Galicia, não há nenhuma diferença no gosto”, completa.

Se vale a dica, depois que os bebês engatam na alimentação, é viável tomar um drink sem medo de olhar para o relógio. Na nossa última viagem, minha filha permitia sempre uma cerveja, na hora do almoço, para a mamãe aqui. A próxima mamada vinha apenas as 18h. Tudo é uma questão de adaptação para a família e de a mãe se sentir confortável com a situação.